sábado, 13 de junho de 2026

Sutilmente, outra vez


Bele,

Outro dia me peguei pensando que talvez a felicidade não faça barulho. Ela não chega em explosões, em fogos de artifício ou em músicas que alguém escreveu para tocar exatamente na hora certa. Ela chega, sutilmente.

Chega quando você encosta a cabeça no meu ombro sem perceber que fez isso. Chega quando, distraída, procura minha mão enquanto atravessamos uma rua qualquer. Chega quando você fala do seu dia como quem acha que não há nada de extraordinário para contar, enquanto eu fico completamente fascinado pelo jeito que você conta as coisas mais simples do mundo.

Ainda não sei responder à pergunta sobre condicionamento ou memória afetiva. Talvez seja outra coisa. Talvez seja reconhecer um lugar antes mesmo de chegar nele.

Porque teu cheiro me lembra paz, mesmo quando o dia foi uma bagunça. Porque tua voz consegue diminuir o peso das coisas sem sequer tentar. Porque teu abraço tem uma estranha capacidade de convencer o mundo inteiro a esperar mais cinco minutos. E eu sempre quero esses cinco minutos.

Descobri também que amar não é apenas desejar futuros enormes. É desejar pequenos futuros.

Quero saber como vai ser teu cabelo numa manhã de domingo qualquer. Quero descobrir quantas vezes você vai rir antes do café. Quero discutir sobre qual filme assistir e acabar vendo metade dele porque passamos mais tempo conversando do que olhando para a tela. Quero reclamar que você roubou meu casaco sabendo perfeitamente que ele já era seu no instante em que o colocou sobre os ombros.

Ainda quero viajar.

Quero me perder contigo em cidades cujo nome mal sei pronunciar. Quero pegar trens errados, dormir em aeroportos, colecionar mapas amassados e fotografias tortas. Quero provar comidas estranhas, aprender palavras impossíveis e rir quando nenhum de nós conseguir explicar o caminho para voltar.

Mas existe uma coisa curiosa. Quanto mais penso em conhecer o mundo, mais percebo que meu lugar favorito continua sendo aquele exato espaço entre teu abraço e teu sorriso.

Você me ensinou uma forma silenciosa de coragem. A coragem de demonstrar. De olhar por alguns segundos a mais. De dizer que senti saudade. De não esconder que meu coração acelera quando você aparece. De admitir que ainda fico sem jeito quando você me olha daquele jeito que parece enxergar todas as versões de mim ao mesmo tempo.

Se um dia me perguntarem quando começou essa história, acho que não vou saber responder. Porque ela não começou de repente. Ela aconteceu sutilmente.

Num cheiro. Numa risada escondida atrás das mãos. Num "senti tua falta" dito como quem fala de algo comum. Num beijo de encontro. Num segredo compartilhado. Num monte de piadas ruins. Num olhar de jabuticaba que ainda hoje me faz esquecer qualquer frase que eu tinha preparado.

E se um dia me perguntarem o que eu mais quero da vida, talvez a resposta continue sendo absurdamente simples.

Quero continuar descobrindo quem você é. Quero continuar deixando que você descubra quem eu sou. Quero continuar colecionando memórias que façam o coração ficar quentinho antes mesmo de acontecerem.

E, quando o mundo inteiro estiver correndo depressa demais, quero continuar encontrando você.

Sutilmente.

Como quem chega em casa sem perceber que já estava voltando desde o começo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário