sexta-feira, 16 de dezembro de 2016


Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
7-11-1915
“Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).
  - 87.
1ª publ. in “Poemas Inconjuntos”. In Athena, nº 5. Lisboa: Fev. 1925.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A realidade não precisa de mim...




Se eu soubesse que amanhã morria
E a primavera é depois de amanhã
Se eu soubesse que amanhã morria
E a primavera é depois de amanhã
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã
Se esse é seu tempo, quando havia ela de vir
senão no seu tempo?
Se esse é seu tempo, quando havia ela de vir
senão no seu tempo?

A realidade não precisa de mim
A realidade não precisa de mim
A realidade não precisa de mim
A realidade não precisa de mim

Se eu soubesse que amanhã morria
E a primavera é depois de amanhã
Se eu soubesse que amanhã morria
E a primavera é depois de amanhã
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã
Se esse é seu tempo, quando havia ela de vir
senão no seu tempo?
Se esse é seu tempo, quando havia ela de vir
senão no seu tempo?
Se esse é seu tempo, quando havia ela de vir
senão no seu tempo?

A realidade não precisa de mim
A realidade não precisa de mim
A realidade não precisa de mim
A realidade não precisa de mim

É melhor ser alegre que ser
Triste
Alegria é a melhor coisa que
Existe
É assim como a luz no coração
Põe um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
O poder que tem um samba
Não, porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser tão triste
Não
Tão triste
Não
Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba sim não é de nada
Um bom samba é uma forma de oração
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é preto demais no coração
No coração, no coração
No coração

Se eu soubesse que amanhã morria
E a primavera é depois de amanhã
Se eu soubesse que amanhã morria
E a primavera é depois de amanhã
Se eu soubesse que amanhã morria
E a primavera é depois de amanhã
(Morreria contente porque ela era depois de amanhã)
Se eu soubesse que amanhã morria
E a primavera é depois de amanhã
(Se esse é seu tempo, quando havia ela de vir
senão no seu tempo?)
Morreria contente porque ela era depois de amanhã
Se esse é seu tempo, quando havia ela de vir
senão no seu tempo?

A realidade não precisa de mim
A realidade não precisa de mim
A realidade não precisa de mim
A realidade não precisa de mim
A realidade, não precisa de mim
A realidade não precisa de mim